Cavaquinho: como afinar bem para tocar melhor
O cavaquinho pode ter várias afinações. Descubram quais e porquê, e também que cudados devem ter ao afinar o cavaquinho.
O cavaquinho é um instrumento surpreendente para quem o descobre pela primeira vez. É pequeno e portátil, tem um timbre vibrante e cheio de personalidade, é relativamente fácil de tocar mas muito exigente para o tocar muito bem.
Mas há uma coisa que muita gente não espera: não existe uma única afinação do cavaquinho. Existem várias, que variam consoante a região, a tradição musical e até o músico que toca.
Perceber o porquê destas variações é o primeiro passo para afinar bem. Neste guia explicamos as afinações mais comuns nas diferentes tradições do cavaquinho, como afinar de forma prática e segura, o papel das cordas na estabilidade da afinação, e os erros que convém evitar.
ÍNDICE
Um instrumento, muitas afinações: porquê?
As afinações mais comuns do cavaquinho
Cavaquinho minhoto — múltiplas afinações para múltiplas tradições
Cavaquinho da Madeira (braguinha ou machete) — Ré-Si-Sol-Ré
Cavaquinho brasileiro — Ré-Si-Sol-Ré
Cavaquinho de Cabo Verde — Ré-Si-Sol-Ré
Como afinar o cavaquinho passo a passo
Afinar com afinador electrónico ou app
Afinar de ouvido por referência entre cordas
Afinação após colocar cordas novas
A influência das cordas na afinação
Erros comuns ao afinar o cavaquinho
Um instrumento, muitas afinações: porquê?
O cavaquinho nasceu no Minho, provavelmente por volta do século XVI, e foi-se espalhando pelo país, pelas ilhas e pelo mundo através da expansão e emigração portuguesas. Em cada paragem, o instrumento adaptou-se às músicas e repertórios locais, às técnicas dos músicos que o acolheram, aos materiais dos sítios onde fez casa. E essa adaptação aconteceu também na afinação.
Ao contrário do que se passa com um violão ou guitarra clássica, que usa uma afinação standard quase universal , o cavaquinho nunca teve uma só norma. A diversidade de afinações reflecte a diversidade de tradições que este instrumento atravessou ao longo de séculos. Conhecê-las ajuda a perceber o instrumento e a escolher a afinação certa para o estilo que querem tocar.
Guia de afinação para instrumentos de cordas
As afinações mais comuns do cavaquinho
Cavaquinho minhoto — múltiplas afinações para múltiplas tradições
O cavaquinho minhoto é a forma original do instrumento e, por isso mesmo, a que tem mais variação de afinações. As fontes académicas documentam várias, usadas conforme a região, o repertório e até o gosto do músico. As mais conhecidas são:
- Ré-Si-Sol-Sol (da 1.ª para a 4.ª corda, dos agudos para os graves) — conhecida em Braga como afinação para varejamento, é considerada a mais tradicional
- Mi-Dó#-Lá-Lá — outra afinação clássica do cavaquinho minhoto, reentrante, com a corda mais grave a ser a 3.ª
- Ré-Si-Lá-Mi — usada em Coimbra e por alguns solistas, com carácter mais versátil
- Lá-Mi-Dó-Sol — afinação tradicional de Barcelos, para acompanhar malhões, chulas e viras
A afinação reentrante, em que a corda grave não é a mais grossa, mas a 3.ª, é uma característica que distingue o cavaquinho minhoto de muitos outros cordofones e que contribui para o seu timbre particular.

Cavaquinhos portugueses no Salão Musical
Cavaquinho da Madeira (braguinha ou machete) — Ré-Si-Sol-Ré
O cavaquinho da Madeira, também conhecido por braguinha ou machete, tem uma construção ligeiramente diferente do minhoto: o braço é mais curto, a escala prolonga-se até à boca redonda e o cavalete assemelha-se ao das guitarras. A afinação mais usada é Ré-Si-Sol-Ré (dos agudos para os graves), correspondente ao acorde de Sol maior.
É desta versão do instrumento, levada para o Havai em 1879 por emigrantes madeirenses, que descende o ukulele — daí a afinação do braguinha ser tão próxima da do ukulele soprano e concerto.
A Madeira tem ainda o rajão, uma versão de cinco cordas com afinação Lá-Mi-Dó-Sol-Ré (da 1.ª para a 5.ª corda), onde o Dó é a corda mais grave. Esta afinação atípica dá ao rajão uma personalidade sonora distinta e foi também uma das influências na formação do ukulele.

Cavaquinho Braguinha Madeirense Artimúsica CV70Tno Salão Musical
Cavaquinho brasileiro — Ré-Si-Sol-Ré
O cavaquinho chegou ao Brasil através de colonizadores portugueses, com influência tanto do minhoto como do braguinha madeirense. No Brasil, ganhou forma própria: a caixa é ligeiramente maior, o braço está em ressalto relativamente ao tampo, e a escala tem mais de 12 trastes.
A afinação mais usada no cavaquinho brasileiro é Ré-Si-Sol-Ré (dos agudos para os graves), coincidindo com a do braguinha. Existe também a variante Ré-Si-Sol-Mi, mais usada por solistas. O instrumento é tocado com palheta e tem um papel central no samba, no choro e noutros estilos da música popular brasileira, com grande destaque na marcação rítmica e harmónica.

Cavaquinho Brasileiro APC BRO100 no Salão Musical
Cavaquinho de Cabo Verde — Ré-Si-Sol-Ré
O cavaquinho chegou a Cabo Verde a partir de Portugal e do Brasil, beneficiando da posição do arquipélago como entreposto histórico entre os dois continentes. A investigadora Margarida Brito documenta a sua presença nas ilhas já no início do século XX.
O cavaquinho cabo-verdiano distingue-se do português pelo tamanho — a caixa é maior e mais profunda, gerando um som mais encorpado e quente — e pela escala, que apresenta 16 trastes em ressalto. A afinação mais corrente é Ré-Si-Sol-Ré, idêntica à do cavaquinho brasileiro, embora alguns músicos e fontes refiram também variantes como Mi-Si-Sol-Ré consoante a ilha e o contexto.
O instrumento tem um papel central na música tradicional cabo-verdiana, presente na morna, na coladeira, no funaná e na mazurca. Funciona sobretudo como instrumento rítmico e de acompanhamento harmónico, mas pode ocasionalmente assumir um papel melódico.

Artimúsica CV60S no Salão Musical de Lisboa
Como afinar o cavaquinho passo a passo
Afinar com afinador electrónico ou app
É o método mais fiável e recomendado, especialmente para quem está a começar. Um afinador electrónico cromático — seja um clip-on preso à cabeça do instrumento ou uma aplicação no telemóvel — detecta a nota que estão a tocar e indica se está acima ou abaixo da afinação correcta.
O processo é simples: toquem uma corda de cada vez e ajustem a tarraxa correspondente até que o afinador indique a nota pretendida. Um detalhe importante: afinar sempre a subir de tensão, não a descer. Se estiverem acima da nota, baixem a corda mais do que o necessário e voltem a subir até à nota certa. Isto ajuda a estabilizar a afinação.
A ordem convencional, dos agudos para os graves, é a 1.ª, 2.ª, 3.ª e 4.ª corda. Depois de afinar todas, verifiquem novamente a 1.ª. É frequente a tensão de uma corda influenciar ligeiramente as restantes.

Afinar de ouvido por referência entre cordas
Para quem já tem alguma prática, é possível afinar o cavaquinho usando apenas o ouvido e uma nota de referência. A técnica mais comum consiste em premer uma corda num determinado traste para obter a mesma nota que a corda seguinte em corda solta, comparando os dois sons por uníssono ou por oitava.
Este método exige ouvido treinado e paciência. A afinação electrónica é mais rápida e precisa, mas a prática de afinar de ouvido é um excelente exercício musical que vale a pena desenvolver com o tempo.
Afinação após colocar cordas novas
As cordas novas precisam de tempo para estabilizar. Nos primeiros dias depois de as colocar, o instrumento vai desafinar com frequência — é normal. O processo de rodagem pode ser acelerado esticando suavemente cada corda com os dedos após a afinar, repetindo este gesto algumas vezes. Mesmo assim, preparem-se para afinar várias vezes por sessão durante os primeiros dois ou três dias.
A influência das cordas na afinação
A escolha das cordas afecta directamente a estabilidade da afinação e o timbre do instrumento. O cavaquinho usa geralmente cordas de aço, mas o calibre e o material de revestimento variam.
Cordas de maior calibre produzem mais volume e sustentação, mas exigem mais tensão e podem ser mais difíceis de pressionar. Cordas de menor calibre são mais confortáveis para quem está a começar, mas podem ter menos projecção. O equilíbrio entre conforto e som é uma escolha pessoal que se vai afinando com a experiência.
Outro factor importante é o estado das cordas. Com o uso, as cordas perdem brilho, acumulam resíduos e ficam mais difíceis de afinar com precisão. Quando notarem que o instrumento está a ficar com um som mais apagado ou que a afinação se torna instável mesmo com o instrumento em boas condições, é sinal de que está na hora de mudar as cordas. Para quem toca regularmente, a substituição pode ser necessária de algumas semanas a poucos meses, conforme a frequência de uso.

Jogos de Cordas para cavaquinho
Erros comuns ao afinar o cavaquinho
Afinar um instrumento de cordas é fácil, mas fazê-lo de forma precisa e estável exige que se siga um certo método. O cavaquinho não é excepção, por isso deixamos aqui algumas
Afinar sempre a descer. Quando baixam uma corda além da nota pretendida e ficam a ajustar para baixo, a tensão na tarraxa fica instável e a corda desafina mais rapidamente. Sempre que ultrapassem a nota, baixem bem abaixo e voltem a subir até à nota que pretendem.
Ignorar o período de rodagem das cordas novas. Como dissemos antes, cordas novas desafinam muito nas primeiras sessões. Não é o instrumento que tem problemas, é só o processo normal de estabilização da tensão.
Afinar num ambiente com temperatura ou humidade extrema. A madeira do cavaquinho responde às variações ambientais. Um instrumento que estava afinado num quarto quente pode desafinar quando levado para o exterior num dia frio. Sempre que mudarem de ambiente, confiram a afinação antes de tocar. Esta recomendação aplica-se especialmente a tunas e outros grupos que tocam ao ar livre.
Não verificar a afinação durante a sessão. Mesmo com cordas estabilizadas, o cavaquinho pode desafinar ligeiramente ao longo de uma sessão de estudo (e durante um concerto), especialmente se tocarem com intensidade. O hábito de verificar a afinação regulramente enquanto estão a tocar, seja em casa ou numa atuação, faz toda a diferença no resultado final.
Usar só os ouvidos sem referência objectiva. O ouvido humano adapta-se facilmente a uma afinação ligeiramente errada e deixa de a perceber como errada. Usar um afinador regularmente, mesmo quando já têm prática, é uma garantia de rigor.
Notas finais
A afinação do cavaquinho é simultaneamente simples e rica. Simples porque com um bom afinador e um pouco de prática qualquer pessoa consegue afinar o instrumento com precisão. Rica porque a variedade de afinações reflecte a história e a diversidade de um instrumento que percorreu o mundo e se reinventou em cada paragem.
O ponto de partida mais prático é escolher a afinação adequada à tradição que querem explorar — minhota, madeirense, brasileira ou cabo-verdiana — e manter-se consistentes nessa afinação enquanto constroem as primeiras bases técnicas. Com o tempo, a percepção auditiva vai crescer e afinar vai tornar-se cada vez mais intuitivo.
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