Carlos do Carmo é para sempre

Carlos do Carmo é para sempre

O ano começou com a notícia da partida de Carlos de Carmo para o grande palco na Rua da Eternidade. O cantor que colocou a imagem de uma cidade com ar de menina e moça e nos levou a passear de cacilheiro pelo Tejo fora ao sabor da sua voz, nem estava a contar ser fadista. Mas era o negócio de família: o pai era gerente de uma casa de fados e Carlos do Carmo cresceu com o fascínio das histórias de faca e alguidar que ouvia em miúdo, muitas vezes pela voz da mãe, Lucília do Carmo, uma das grandes fadistas do fado corrido e uma das melhores vozes da canção nacional.

Este fado faz parte da colecção Fado de Lisboa, uma das compilações da Seven Muses, que podem encontrar no Salão Musical de Lisboa.

Com a morte do pai em 1962, Carlos do Carmo regressa da Suíça, onde estava a estudar, e assume a gerência d’A Adega da Lucília, a casa de fados da família e que mais tarde mudaria o nome para Faia e se tornaria o epicentro do novo fado em Lisboa. Mesmo à sombra da mãe, Carlos do Carmo encontrou a sua voz e o seu espaço, graças à capacidade que define os grandes músicos: saber ouvir.

Carlos do Carmo era fã de Tony Bennett, Frank Sinatra (que homenageou com um concerto), Jacques Brel, Gilbert Bécaud e também de muitos músicos brasileiros: Chico Buarque, Tom Jobim, Elis Regina, Vinicius de Morais. Partilhou palco com muitos, cantou outros. A variedade nos seus gostos levou-o a querer fazer música com músicos que não eram do fado, interpretando canções de outros registos, tocando com músicos de jazz, abraçando a música popular, gravando com Maria João Pires.

Uma das colaborações mais brilhantes e espontâneas, quase uma desgarrada de emoção, é a que fez com Bernardo Sassetti, em 2010. Um dos mais mais belos resultados desse disco é este Retrato, a partir de um poema de Mário Cláudio.

 

Carlos do Carmo era um cantor de palavra, da palavra. Mais do que a música, era a poesia que o levava a extrair de cada sílaba todas as melodias e sentimentos que pudesse conter. Colaborou com os maiores poetas da sua geração, como José Carlos Ary dos Santos, de quem era amigo próximo. Aventurou-se a cantar os maiores escritores nacionais, pegando em textos que, supostamente, não teriam sido feitos para cantar. Ou, se calhar, foram feitos para serem cantados apenas por ele.

Não foi só em português que Carlos do Carmo interpretou as suas canções. Para além de ter homenageado Frank Sinatra numa série de concertos em colaboração com a Count Basie Orchestra, Carlos do Carmo enfrentou a montanha russa que é a La Valse a Mille Temps, de Jacques Brel, numa demonstração de domínio do ritmo e da expressão ao alcance de muito poucos.

 

 

Por estas e por muitas outras, é difícil fechar Carlos do Carmo nas fronteiras do fado. Era um apaixonado pela música, pelas palavras dos outros que sabia desenrolar em canções cheias de sentido e sentimento. Levou o fado para outras músicas, trouxe outras músicas para o fado, abriu a porta para que os fadistas modernos pudessem ter o espaço para experimentar e cruzar estilos e géneros diversos, dando uma nova vida e roupagem à canção nacional com novas energias e linguagens.

No seu disco Fado é Amor, Carlos do Carmo partilha alguns dos fados mais bonitos da sua carreira com os novos fadistas que saberão pegar no seu legado e levá-lo mais além.

O que fica de Carlos do Carmo é precisamente o amor pela música, pela poesia e pelo fado. Agora que se tornou imortal, é necessário celebrar o seu legado através das canções que nos deixou, e das lições que podemos tirar de uma vida bem vivida

A Primavera continua, em bandos de pardais à solta pelas colinas de Lisboa, debruçada sobre o Tejo onde andam canoas em busca de um cais. Se ouvirem com atenção, é a voz de Carlos do Carmo que reverbera nos ecos dessa cidade eterna que lhe dava a luz e a inspiração.

Obrigado e até sempre. 

Fotografia: José de Sousa @Infocul

Publicado no dia 2021-01-06 por Salão Musical de Lisboa Atualidade 0 110

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