António Chainho: o guardião da guitarra portuguesa
Salão Musical de Lisboa Loja de instrumentos musicais desde 1958
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António Chainho: o guardião da guitarra portuguesa

Publicado por2026-02-05 por 29
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Descubram a vida e a obra de António Chainho e a sua influência na história da guitarra portuguesa.

A guitarra portuguesa é maior graças a António Chainho. O guitarrista português levou a música e o instrumento nacionais além fronteiras, divulgando a canção nacional e cruzando-a com expressões musicais de outras paragens. Ao longo da sua vida, teve a preocupação de preservar a tradição da guitarra portuguesa, ao mesmo tempo que inovava o método de ensino, influenciando gerações inteiras de músicos.

Venham descobrir a vida e a obra de António Chainho e a sua influência na história da guitarra portuguesa.

ÍNDICE

Origens de António Chainho

De volta a Portugal: as casas de fado de Lisboa

A guitarra portuguesa em diálogo com o mundo

Um legado eterno

Origens de António Chainho

António Dâmaso Chainho nasceu em 27 de janeiro de 1938, em Santiago do Cacém, em pleno Alentejo.

A família tinha uma tasca onde a música era um dos pratos principais. A Tasca do Faúlha servia de ponto de encontro para músicos e espectadores, juntando fadistas da região, e o pai de Chaínho também se juntava com a sua guitarra às sessões de fado.

Foi aí, ainda criança, que começou a pegar na guitarra portuguesa que o pai mantinha no estabelecimento, aprendendo a tocar por ouvido pela rádio e observando o pai e outros guitarristas que por lá passavam. Atua pela primeira vez em público aos 13 anos e, rapidamente, passa a ser uma presença habitual em encontros de fado da zona.

Durante o serviço militar em Beja conhece o guitarrista Carlos Gonçalves, que será uma ligação importante para a sua futura carreira. Entretanto é mobilizado para Moçambique, mas como o seu talento como guitarrista é já conhecido, passa o serviço militar a acompanhar artistas portugueses em digressão pelo ultramar.

De volta a Portugal: as casas de fado de Lisboa

Em 1966 regressa a Portugal, instalando-se em Lisboa decidido a viver apenas da música. Passa por várias casas de fado, integra o conjunto de guitarras de Jorge Fontes e é convidado a substituir Carlos Gonçalves - o seu amigo da tropa - na eterna casa de fado “A Severa”, onde ficou como guitarrista residente.

Toca em outros espaços emblemáticos do fado de Lisboa, como O Faia, O Folclore e no Picadeiro, do qual chegou a ser co-proprietário com o fadista Rodrigo. Alimentando o seu fascínio pela guitarra portuguesa, António Chainho forma o seu próprio conjunto, mas é no acompanhamento de nomes maiores do fado e da canção portuguesa que começa a deixar uma marca clara na história da guitarra portuguesa.

Nesses primeiros anos em Lisboa tocou com Maria Teresa de Noronha, Lucília do Carmo, Carlos do Carmo, Francisco José, Tony de Matos, António Mourão, Frei Hermano da Câmara e Hermínia Silva. Ao fim de três anos, recebe um convite da Emissora Nacional para participar no programa de rádio “Fados e Guitarradas”.

Chainho leva o seu conjunto, composto pelo guitarrista José Luís Nobre Costa e os violistas Raúl Silva e José Maria Nóbrega. Para alguém que aprendeu a tocar de ouvido, e a ouvir e a aprender os fados transmitidos pela rádio, este momento tem um simbolismo especial. Passa de ouvinte apaixonado a intérprete reconhecido, assinando recitais memoráveis de guitarra transmitidos para todo o país.

É também nesta fase, já no final da década de 1960, que grava o seu primeiro disco, o LP “Solos de Chainho”, pela editora Rapsódia. A este trabalho seguem-se mais três LPs, editados por outras companhias discográficas, consolidando um percurso que passa do palco e da rádio para o registo áudio e para a memória coletiva.

É nesta altura que António Chaínho decide apostar numa carreira a solo, dedicada à divulgação da guitarra portuguesa e ao desenvolvimento da sua linguagem. E, para isso, iria galgar fronteiras em busca de novos públicos e de novos sons.

A guitarra portuguesa em diálogo com o mundo

A partir dos anos de 1980, o Mestre António Chainho quis dar à guitarra portuguesa um papel de destaque e cruzar o fado com outros universos musicais. O álbum “Guitarra Portuguesa”, editado em 1980, é um marco importante na sua discografia a solo, e um ponto de viragem na interpretação da guitarra portuguesa.

Sempre modesto, mas reconhecido como um músico de enorme qualidade, António Chainho vai chamando para junto de si artistas de primeira linha, sempre com um objetivo claro: levar a sonoridade da guitarra portuguesa a públicos cada vez mais vastos, a solo ou partilhando o palco com nomes como Paco de Lucía e John Williams, em salas de concerto e em festivais dedicados à guitarra.

É também neste período que abre uma nova fase na sua discografia. Grava dois discos com a Orquestra Sinfónica de Londres. A partir desse ponto, assume com maior firmeza uma carreira discográfica centrada em composições originais, afirmando a guitarra portuguesa como instrumento solista e autoral, para lá do papel tradicional de acompanhamento.

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Ao mesmo tempo, explora caminhos menos óbvios para o fado e para a guitarra portuguesa. Participa no álbum “Fura Fura”, de José Afonso, e, com Rão Kyao, integra o projeto “Fado Bailado”, cruzando linguagens e abrindo espaço para novas influências.

Nesse contacto com outras culturas e estéticas, é com naturalidade que partilha a guitarra portuguesa com vozes muito diversas, de Gal Costa e Fafá de Belém a Maria Dolores Pradera, Saki Kubota e até com a americana kd lang, na coletânea “Red Hot + Lisbon”, num gesto que coloca o instrumento num diálogo contemporâneo e global.

Uma das experiências mais fascinantes de Chaínho é a mistura que faz com a música de Goa, que mostra que o fado é a interpretação nacional de um sentimento global.

Em 1998, grava “A Guitarra e Outras Mulheres”, um disco que reúne um elenco vocal marcante, com Teresa Salgueiro (Madredeus), Marta Dias, Filipa Pais, Ana Sofia Varela, Elba Ramalho e Nina Miranda (Smoke City).

Acompanhado também por músicos ligados à cena nova-iorquina, como Bruce Swedien, Greg Cohen e Peter Scherer, Chainho cruza a tradição com novas sonoridades e consegue um feito raro: o álbum ultrapassa as vinte mil cópias vendidas e torna-se uma referência na música portuguesa, tanto pela ambição como pela forma como posiciona a guitarra portuguesa no imaginário do público mundial.

No Brasil, aprofunda ainda mais essa ponte cultural. Com Celso Fonseca e Jaques Morelenbaum, conhecido pelo trabalho de arranjos com Caetano Veloso, grava “Lisboa – Rio”, um álbum que aproxima universos e reafirma ligações antigas entre a música portuguesa e a música brasileira, alternando entre a tradição e revisitações de clássicos.

Mais tarde, a presença de Chainho torna-se uma constante ao lado de grandes vozes contemporâneas. O tenor José Carreras conta com a sua colaboração num concerto no Pavilhão Atlântico. Adriana Calcanhotto chama-o para integrar uma das suas digressões em Portugal. Maria Bethânia convida-o para atuar em espetáculos no Rio de Janeiro e em São Paulo. Seja no Brasil, Itália ou Japão, Chainho divulga a guitarra portuguesa, mostra o seu potencial expressivo e abre caminho para novas escutas.

Durante alguns anos, fez-se acompanhar por Fernando Alvim, parceiro próximo de Carlos Paredes, e a cumplicidade musical entre ambos conquistou públicos em várias geografias. Entre as colaborações mais relevantes, destaca-se ainda a relação com a vocalista Marta Dias, uma das vozes de “A Guitarra e Outras Mulheres”, que se torna presença habitual nos concertos.

Num registo ao vivo no Centro Cultural de Belém, Chainho junta-se a Eduardo Miranda e Tuniko Goulart, com Marta Dias como única vocalista, e leva a guitarra portuguesa a terrenos que tocam o jazz, a soul e a música brasileira, sem se afastar do fado.

As apresentações de Chainho continuam a surpreender fora de Portugal e acabam por formar escola. O seu trabalho inspira e influencia alunos e músicos em países tão distintos como Índia, Japão, Marrocos e Brasil.

O reconhecimento internacional culmina numa distinção simbólica. A revista inglesa Songlines inclui António Chainho entre os cinquenta melhores instrumentistas de World Music, reforçando a ideia de que a sonoridade da guitarra portuguesa, quando encontra um intérprete com esta visão, é uma linguagem universal.

Mestre António Chaínho

Em Portugal, essa missão de divulgação e preservação do instrumento símbolo de Portugal ganha também forma num projeto educativo de enorme importância. Em 2001 juntou-se ao corpo docente da Escola de Guitarra do Museu do Fado, em Lisboa, um espaço pensado para preservar, celebrar e dar continuidade a uma herança musical muito concreta.

É lá que leciona, partilha métodos, repertório e formas de tocar com dezenas de alunos. A sua abordagem junta rigor técnico, respeito pela tradição e abertura à criação de novas peças e arranjos.

Ao longo de seis décadas de carreira, foi distinguido com diversas homenagens e condecorações, sendo unanimemente reconhecido como um dos maiores mestres da guitarra portuguesa. O seu estilo, ao mesmo tempo lírico, sólido e profundamente ligado ao fado, influenciou várias gerações de guitarristas.

Um legado eterno

António Chaínho faleceu a 27 de janeiro de 2026, precisamente no dia em que completava 88 anos, em Alfragide, na Amadora.

O seu legado vive não só nos discos e gravações em que participou, mas também nas mãos dos muitos guitarristas que formou e inspirou, e nas colaborações registadas para a eternidade que abriram a música e a guitarra portuguesas a um novo universo de ouvintes pelo mundo inteiro. Há uma história da guitarra portuguesa e do fado, antes e depois de António Chaínho. A nossa gratidão por tudo o que fez é imensa.

Se quiserem seguir as suas pegadas, o Salão Musical tem tudo o que precisam para a interpretação da guitarra portuguesa, em diálogo com a emoção e também outras tradições musicais. Visitem a nossa loja e descubram as guitarras portuguesas que temos em catálogo.

Guitarras
Portuguesas no Salão Musical

Guitarras Portuguesas no Salão Musical

FOTO: Wikimedia
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