Pioneiras da música

Pioneiras da música

8 de Março é Dia da Mulher. É sempre dia da Mulher, na verdade, mas este dia é uma excelente desculpa para falarmos sobre elas. Na História da Música não faltam mulheres inovadoras mas que foram injustamente esquecidas ou ignoradas. Esta é a nossa oportunidade de as recordarmos.

Clara Schumann

Clara Schumann foi uma compositora e pianista do século XIX, considerada como um dos maiores expoentes da música romântica. O marido de Clara era um tal de Robert, que também ficou conhecido pela sua música. Estamos a brincar, o casal Schumann era um portento musical e trabalhavam os dois em conjunto, quer no desenvolvimento das suas composições como na sua divulgação. Clara era, muitas vezes, a primeira intérprete das obras de Robert.

A sua importância como compositora está a ser redescoberta, mas o seu papel, como pianista - teve uma carreira que durou 61 anos - e como educadora está mais do que reconhecido. O trabalho de Clara Schumann passava também por rever os repertórios musicais estabelecidos, mudando a percepção do público apresentando novos compositores. Uma inovadora.

Para conhecer melhor o trabalho de Clara Schumann recomendamos que vejam esta explicação do seu Trio para Piano em Sol menor, por Rachel Leach, animadora da London Symphony Orchestra, numa boa demonstração de serviço público e educação musical.

Se quiserem só desfrutar da obra, podem ouvir uma compilação das suas peças para piano.

Nadia Boulanger

“Conseguem viver sem música?”

Era esta a pergunta que Nadia Boulanger fazia aos seus potenciais alunos. Se respondessem sim, adeus e boa sorte. Mademoiselle Boulanger aceitou ao longo da sua vida mais de mil alunos que disseram não, e até devem reconhecer os nomes de alguns: Lalo Schifrin, Daniel Barenboim, Quincy Jones, Astor Piazzolla, Leonard Bernstein, Aaron Copland, Philip Glass, John Eliot Gardiner. É considerada a maior professora desde Sócrates.

Nascida no seio de uma família musical no final do século XIX, Nadia Boulanger foi, para além de professora, maestro e compositora.  Desde cedo mostrou um talento excepcional, e encorajada a exercê-lo. Mas, como não se achava suficientemente boa para ser compositora, dedicou-se ao ensino. Talvez a falta de confiança nas suas capacidades fosse exagerada. Ou um reflexo da época.

Foi a primeira mulher a dirigir grandes orquestras na Europa e nos Estados Unidos da América, onde também ensinou. Boulanger soube desde o início a resposta à sua pergunta e viveu pela e para a música até aos 92 anos.

Rosetta Tharpe

Não se pode falar de mulheres relevantes na História da Música e deixar a Irmã Rosetta Tharpe de fora. Poucos músicos foram tão inovadores no século XX como esta senhora, que cantava gospel e tocava guitarra como ninguém. Acham que o Chuck Berry é importante na história da guitarra? Aquele moço chamado Elvis? Pois, nos anos 40 ela já exercia a sua influência sobre essa geração que viria a inventar o Rock’n’Roll.

Rosetta nasceu a apanhar algodão no Arkansas, onde começa a cantar e a tocar na igreja com os seus pais, mas foi em Chicago que encontra o som que a definiu, os blues elétricos. Rapidamente fez amizade com os grandes nomes da época: Cab Calloway, Big Joe Turner, Big Bill Broonzy, Count Basie.

Demorou até ser reconhecida, mas esta mulher que (para alguns) tocava mais que o Chuck Berry e cantava melhor que a Aretha Franklin, é uma das figuras incontornáveis da música popular dos últimos 100 anos, sendo conhecida como a Madrinha do Rock’n’Roll.

Vejam o documentário sobre Rosetta Tharpe, vale mesmo a pena. Legendado em Português, para ser mais fácil de seguir.  



Delia Derbyshire

Todos os fãs do Dr.Who conhecem parte do trabalho de Delia Derbyshire. Foi esta senhora que fez o arranjo eletrónico para o tema desta popular série, mas Delia fez muito mais do que pegar na composição de Ron Grainer e trabalhá-la ao ponto de o próprio autor não a reconhecer: “Fui eu que compus isto?”

“A maior parte”, respondeu Delia. Grainer tentou que a compositora recebesse crédito como co-autora, mas o sistema burocrático da BBC impediu-o. Isto porque Delia trabalhava na BBC Radiophonic Workshop onde, nos anos 60, se podia brincar com algum do equipamento eletrónico mais interessante da época para se fazer sons novos e música diferente. Delia Derbyshire acabou por criar inúmeros temas para séries televisivas e programas de rádio.  

Mais tarde juntou-se a alguns compositores de música experimental com quem criou as bases da música eletrónica inglesa, particularmente com o conjunto White Noise e o seu disco An Electric Storm.

Se ouvirem a música de Delia, o que vos vai surpreender mais é a sua modernidade. Foi feita há 50 anos, mas soa como se tivesse sido feita ontem. A quase totalidade dos produtores de música de dança deve-lhe mais do que imagina e nem sequer conhecem o seu nome. Isto tudo antes dos sintetizadores e samplers e as ferramentas que agora parecem que sempre existiram e que fazem parecer tudo tão fácil.

A vida de Delia foi conturbada, e o seu génio incompreendido. É considerada como a heroína esquecida da música eletrónica britânica, para quem o mundo estava na afinação errada. Este documentário, de tons experimentais como Delia Derbyshire merece, apresenta a música e a compositora, e o contexto histórico e tecnológico da época.



Eliane Radigue

Nascida em 1932, esta compositora francesa é uma das referências da música experimental eletrónica do século XX. Começou no piano, mas após ouvir a música concreta de Pierre Schaeffer, decidiu aventurar-se por novas paisagens sonoras, e aprender diretamente com o compositor, tornando-se sua aluna. Mais tarde, criou sons para as obras de outros mas, à medida que a sua visão musical amadurecia, enveredou pelo mundo novo dos sintetizadores, que estavam a surgir.

Começou num Buchla, experimentou com os Moog, mas ficou-se pelo ARP 2500, o sintetizador usado no filme Encontros Imediatos de Terceiro Grau para comunicar com os extraterrestres. E a música de Eliane pode ser considerada de outro mundo. A compositora, influenciada pelos seus ensinamentos budistas, procurou criar sons de outra esfera, concretizados na obra a Trilogie da la Mort, a representação musical da artista dos seis estados de consciência no budismo.

É uma das pioneiras da música sintetizada, apesar de compor exclusivamente para instrumentos acústicos desde 2000.

Esperemos que as nossas leitoras tenham ficado inspiradas e os nosso leitores também, e tenham descoberto novas músicas e compositoras para celebrar todos os dias. E apoiem as mulheres que fazem da música o seu modo de vida e, como na premissa de Mademoiselle Boulanger, não sabem viver sem ela.

O Salão Musical de Lisboa é um estabelecimento unissexo, temos os melhores instrumentos para os músicos mais dedicados. Façam-nos uma visita.   

Publicado no dia 2019-03-08 por Salão Musical de Lisboa Atualidade 0 69

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