Uma equipa demolidora: os músicos de estúdio que fizeram história

Uma equipa demolidora: os músicos de estúdio que fizeram história

A Wrecking Crew durante uma sessão nos Gold Star Studios, na década de 1960. Da esquerda para a direita: Don Randi, Al De Lory, Carol Kaye, Bill Pitman, Tommy Tedesco, Irving Rubins, Roy Caton, Jay Migliori, Hal Blaine, Steve Douglas, e Ray Pohlman (Fonte: Wikipedia)

E se vos dissessem que alguns dos álbuns e canções mais populares de sempre não foram gravados pelos músicos das bandas que aparecem nas capas dos discos? Querem exemplos? Pet Sounds, dos Beach Boys; Mr. Tambourine Man, pelos Byrds; California Dreamin, The Mamas & The Papas; The Beat Goes On, Sonny & Cher; Bridge Over Troubled Water, Simon & Garfunkel; Unchained Melody, Righteous Brothers; Viva Las Vegas, Elvis Presley...

A lista é interminável. Todas estas canções e muitas outras foram gravadas por um grupo de músicos profissionais que não faziam parte das bandas, mas que contribuíram com o som e, muitas vezes, com sua criatividade: a Wrecking Crew

Parece incrível que um grupo reduzido de músicos tenha tido um peso tão grande na música popular dos últimos 60 anos e que tão poucos saibam da sua existência. Mas essa situação está a mudar, até porque a questão dos músicos de sessão não é mais um assunto tabu. 

A utilização de músicos de estúdio não diminui em nada a importância, valor artístico e comercial das bandas e músicos a que eles recorrem. Pelo contrário, são uma arma secreta no ambiente exigente e muito dispendioso de um estúdio de gravação. Durante décadas foram a garantia de um som e execução perfeitos, no mínimo tempo possível. 

O Pet Sounds é um dos melhores discos de sempre e um dos mais brilhantes exercícios de génio na música popular do século XX que, se fosse tocado exclusivamente pelos Beach Boys, provavelmente não corresponderia à visão de Brian Wilson

Por darem todas as garantias de resultados rápidos e de qualidade, muitos músicos são contratados para gravar partes de músicas em estúdio. Jimmy Page, que devem conhecer de uma banda chamada Led Zeppelin, começou cedo como músico de estúdio, gravando com Shirley Bassey, Petula Clark, The Kinks e Rolling Stones, antes de ser um dos deuses do rock. 

A Wrecking Crew era composta por muitos músicos vindos da escola muito exigente do Jazz ou tinham formação clássica, que viram no trabalho de estúdio uma forma muito rentável e divertida de ganhar a vida, com um bom horário, variedade, estabilidade e a companhia de excelentes músicos. 

Este grupo surgiu casualmente nos anos 60 em Los Angeles, o centro da música pop da época, e solidificou-se sob o comando do produtor Phil Spector, para quem o som era tudo. Como em estúdio tempo é dinheiro, era mais prático pagar a melhores músicos para se ter o melhor som no mais curto espaço de tempo. 

Apesar da formação desta equipa não ser fixa, com vários músicos a entrar e a sair ao longo dos anos, de acordo com a disponibilidade e necessidades das gravações, há uma espécie de núcleo duro que deixou o seu som em milhares de gravações ao longo das décadas. Eram os músicos de prevenção para qualquer situação e todos nós já os ouvimos, sem saber que eram eles. Vamos descobrir quem são. 

Quem fez parte da Wrecking Crew?

Bateria

Vamos começar pela secção rítmica. Os dois bateristas mais presentes nesta formação foram Hal Blaine e Earl Palmer. Estima-se que Blaine terá tocado em cerca de 35 mil sessões e gravado 6 mil singles, muitos deles de topo de tabela de vendas. A batida do Be my Baby, das Ronettes, ainda hoje é copiada por outros músicos.  

Earl Palmer trabalhou nos anos 60 em discos produzidos por Phil Spector, e podemos ouvi-lo em no clássico You've Lost That Lovin' Feelin dos Righteous Brothers' e na tremenda River Deep – Mountain High, de Ike & Tina Turner. 

Acabou por ficar na sombra de Blaine, participando em muitos menos discos de sucesso, mas é um dos grandes inovadores na bateria da época, com uma influência mais profunda do que lhe é creditado. Little Richard, Peggy Lee, B.B.King, Neil Young, Sam Cooke, Glen Campbell e até a banda sonora da Missão Impossível de Lalo Schifrin beneficiaram dos ritmos de Palmer, entre muitos outros. Apreciem o seu balanço numa das músicas mais conhecidas de sempre.

 

Vejam instrumentos de percussão no Salão Musical 

Baixo

Carol Kaye é uma das lendas desconhecidas do grande público mas altamente respeitada por quem a conhece. Esta baixista começou nova como guitarrista de jazz na cena de Los Angeles, para pagar as suas despesas como mãe solteira. A oportunidade de tocar numa sessão de gravação surgiu por acaso e, como o horário e a remuneração eram melhores, preferiu esse caminho. Acabou a tocar baixo porque estavam a precisar de um e cumpriu tão bem a função que acabou por ser o seu instrumento de eleição. 

Podemos ouvi-la a tocar guitarra acústica no La Bamba de Ritchie Valens e no You've Lost That Lovin' Feelin dos Righteous Brothers, por exemplo. Como baixista, ela deixou a sua marca na The Beat Goes On de Sonny & Cher quando sugeriu uma alteração à linha original. No meio de uma carreira tão prolífica, essa linha parece apenas uma nota de rodapé, com Kaye a ser considerada como um dos músicos mais importantes e influentes de sempre e a melhor baixista para Brian Wilson. 

Mas, Carol Kaye, assim como o resto da Wrecking Crew, também parecem ter virado uma nota de rodapé na história da indústria que ajudaram a construir, como podemos ver neste vídeo. 

 

Joe Osborn era o outro baixista de serviço, que encaixava na perfeição com Hal Blaine. Tocou no Bridge Over Troubled Water de Simon & Garfunkel entre muitos outros sucessos, e dedicou-se muito à música vinda de Nashville, estando presente em muitas gravações de músicos country. Um dos temas mais conhecidos em que se destacou foi Ventura Highway, dos America.

  

Outro baixista de estúdio lendário que também fez parte desta equipa fantástica foi Leland Sklar que tem um canal de YouTube essencial para quem gosta de conhecer as histórias por trás de algumas músicas. E ele pode contá-las porque esteve lá. 

Vejam baixos elétricos no Salão Musical 

Guitarra

A Wrecking Crew sempre esteve bem servida de guitarristas. Glen Campbell, Tommy Tedesco e Al Casey foram os mais relevantes. Glen Campbell teve uma excelente carreira a solo (ele próprio gravou o seu clássico Wichita Lineman com os seus colegas de estúdio), Al Casey esteve associado desde cedo ao rock clássico e rockabilly, mas depois enveredou pelo jazz e Tommy Tedesco juntava ao trabalho de músico de estúdio o de músico residente em alguns programas de televisão. 

O filho de Tedesco realizou um documentário sobre a Wrecking Crew onde não podia deixar de falar do trabalho e das capacidades do pai. Tedesco era um músico muito versátil e algo extravagante e é, provavelmente, o guitarrista com mais gravações de sempre. 

 

Vejam guitarras elétricas no Salão Musical

Saxofone

Plas Johnson era um músico versátil, imaginativo e autodidacta. Especializou-se no saxofone alto e acompanhou músicos como B.B. King ou Johnny Otis. Gravou também com Chet Baker, Marvin Gaye, Tom Waits, Ry Cooder, Ella Fitzgerald, e a lista é tão longa que dá para questionar se existiu mais algum saxofonista para além de Johnson numa certa altura da história do planeta.  Mas, se calhar o tema que toda a gente conhece é o clássico de Henry Mancini, Pink Panther. Plas Johnson é o saxofonista solo nesta actuação.

  

Vejam instrumentos de sopro no Salão Musical

 

Teclas

Don Randi começou a brincar com o piano aos 5 anos de idade, avançando para o estudo de música clássica mais tarde. Terminada a sua formação, e como a sua nativa Nova Iorque não lhe dava grandes perspectivas, mudou-se para Los Angeles para ser músico de estúdio. Foi uma aposta ganha, contribuindo para muitos dos grandes álbuns da época, dos Beach Boys a Tim Buckley, de Nancy Sinatra a Buffalo Springfield.

Ouçam o próprio Randi a contar a sua história, tem algumas lições valiosas. 

Vejam Teclados no Salão Musical

 

Uma história extensa

Nos últimos anos, o trabalho destes profissionais tem sido reconhecido, com a inclusão do seu nome no Rock’n’Roll Hall of Fame e como assunto de biografias, tanto como colectivo como individualmente. Como dissemos, o filho de Tommy Tedesco fez em 2008 um documentário sobre esta magnífica equipa que vale a pena procurar, mas também existem dezenas de entrevistas e vídeos com eles e sobre eles. 

 

A importância destes músicos é enorme, mas isto é só a ponta do icebergue musical que é o seu legado, que mostra que merecem ser muito mais do que uma nota de rodapé na História da Música. Se quiserem ter uma melhor noção do que eles fizeram, espreitem esta lista do Spotify onde os podemos ouvir. São mais de 24 horas de grande clássicos. 

Todos os músicos que levam a sua música a sério precisam de material de confiança para tocar o que for preciso, quando for preciso. Visitem a nossa loja online e descubram o instrumento certo para vocês.


Publicado no dia 2021-05-28 por Salão Musical de Lisboa Atualidade 0 195

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