Quando Amália cantou em inglês

Quando Amália cantou em inglês

O fado é uma música com um apelo internacional e intemporal. Do Reino Unido ao Japão, o fado é um género apreciado por públicos diversos que se revêem no seu sentimento tão português, na sua emoção e riqueza musical. É precisamente por expressar a cultura e identidade nacionais que este estilo musical tipicamente português é reconhecido, desde 2011, como Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO.

A maior embaixatriz e representante do fado é, sem sombra de dúvida, Amália Rodrigues. Escolhida pela canção nacional - que interpretava sempre com coração e destreza - para viver o fado como poucos, Amália viajou pelo mundo e cantou com a sua voz única para pessoas de culturas e origens bem diferentes das suas, mas que a percebiam mesmo sem entenderem as palavras que ela cantava.

Amália é uma das grandes vozes do século XX, mas muitos não conseguem separá-la do género que a tornou famosa, o que impede que a vejam à mesma luz com que apreciam outras cantoras como Maria Callas, Ella Fitzgerald ou Whitney Houston, que interpretam estilos musicais com um reconhecimento internacional diferente.  

O fado não é para todos mas, como a música americana parece estar aberta a interpretações diversas, Amália mostrou todo o esplendor da sua voz a cantar standards da Broadway durante uma das melhores fases da sua carreira , numa gravação de 1965, editada apenas em 1984 entre nós. 

“Amália on Broadway” é um registo onde a fadista interpreta, em inglês, algumas das canções mais populares da mítica cena do teatro musical norte-americano, com clássicos como “Summertime”, “Blue Moon” ou “The Nearness of You”.

Ouvir Amália cantar em inglês pode parecer estranho ao início, mas a fadista interpreta com mestria estas canções que, apesar de escritas noutras palavras que não as dela, transmitem as mesmas emoções que estão presentes no fado: a saudade, a perda, o amor e o desamor. As pequenas verdades universais que nos unem a todos, seja qual for a nossa origem.

O que salta ao ouvido é que Amália não perde nunca a sua identidade musical na interpretação destas canções que, por vezes, parecem não ter capacidade para a sua grande voz. Amália enche os espaços e transborda no sentimento, dando-lhes ainda mais gravidade e tragédia, sem perder a subtileza e a sensibilidade exigidas pelas canções originais. 

A entrada que faz em “Blue Moon” faz parecer que este clássico americano escrito por  Richard Rodgers e Lorenz Hart é um fado traduzido para inglês. A interpretação de Amália é única, original e muito personalizada, sendo uma incrível contribuição para a história de uma canção que foi cantada por tantas vozes geniais, de Billie Holiday a Frank Sinatra.

O álbum “Amália on Broadway” foi reeditado em 2014 sob o nome “Someday”, incluindo mais algumas faixas inéditas gravadas na sessão original. À altura do lançamento desse disco, Frederico Santiago, que coordenou a edição, disse que "Amália fez sucesso no mundo com o seu próprio repertório" e que “nunca precisou de `hits` internacionais para ter sucesso planetário.”

Não foi só em inglês que Amália cantou e espantou quem a ouviu. São vários os registos em que a fadista usa outros idiomas como se fossem os seus, como nesta interpretação da “Tarantella”, uma canção popular italiana.

Ou, esta versão de “Inch’Allah”, em que Amália canta em francês como se fosse a sua língua nativa. 

Amália é uma cantora que ultrapassou fronteiras e estilos com uma capacidade musical única, reconhecida por todos que a ouviram. Mais do que uma voz excepcional, Amália interpretava o sentimento de uma canção como poucos conseguiam, fosse em que língua fosse, chegando ao coração de todos os públicos que a ouviram ao longo da sua carreira ímpar.

A sessão original em que foram gravadas as canções da Broadway foi arranjada e dirigida pelo maestro Norrie Paramor, e inclui ainda algumas canções em português, onde Amália faz uma demonstração cabal da sua capacidade musical, como podemos ouvir nesta versão com orquestra de “Lisboa Antiga”.

O fado tem uma linguagem própria mas pode ser a base para outros estilos que, apesar de pertencerem a idiomas musicais distintos, partilham as mesmas emoções. O desafio que lançamos é que partilhem connosco, nas redes sociais ou nos comentários, uma interpretação “fadística” de canções de outros géneros, vossa ou de outros músicos que conheçam.

Para terem o som perfeito para a vossa versão têm que ter uma guitarra que vos forneça o som tradicional que só o fado tem. No Salão Musical de Lisboa temos guitarras portuguesas, de fado Lisboa e de fado Coimbra, a preços imbatíveis para músicos de todos os níveis.

Experimentem e encontrem uma identidade musical universal, mas que é bem nacional.

Publicado no dia 2020-09-21 por Salão Musical de Lisboa Atualidade, Cordas 0 107

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