Como escolher a primeira flauta transversal: chaves, pratos, mecanismos e tamanho
Escolher a vossa flauta transversal não é difícil, se souberem para onde devem olhar.
A flauta transversal é um instrumento fascinante e um desafio de tocar. Mas todo o trabalho e dedicação que exige vale a pena assim que se produzem as primeiras melodias naquele som inconfundível. Saber escolher a primeira flauta transversal faz com que todo o processo de aprendizagem seja mais fácil e é isso que vos vamos ajudar a fazer neste artigo.
À primeira, quem viu uma flauta transversal pode achar que já viu todas: são prateadas, compridas, tocam-se de lado e têm muitos botões. Ou melhor, pratos e chaves, que podem ter configurações diferentes. As definições técnicas podem confundir quem nunca tocou numa: pratos abertos ou fechados, chaves alinhadas ou desalinhadas, mecanismo de Mi, cabeça curva, pé em Dó ou em Si. A flauta parece quase uma figura mitológica, e aquilo que parecia uma compra relativamente simples começa a ganhar dificuldades inesperadas.
Não é necessário fazer um curso técnico de mecânica de flauta, mas convém perceber o que algumas destas características significam, porque há diferenças que podem tornar os primeiros meses de aprendizagem muito mais confortáveis.
Vamos desmontar a flauta peça a peça (figurativamente, claro, deixem a desmontagem verdadeira para um técnico) e descobrir as características a que devem ter atenção quando forem comprar a vossa.
Saibam mais em O que é a Flauta transversal? no Blog do Salão Musical
Índice
O que procurar numa primeira flauta transversal?
Aprender flauta transversal exige bastante trabalho e técnica. É preciso perceber como colocar os lábios, direcionar o ar, controlar a respiração, encontrar as notas, coordenar os dedos e manter braços e ombros numa posição que não pareça saída de uma aula particularmente criativa de ginástica.
O vosso instrumento deve ajudar neste processo, não complicá-lo. É por isso que uma boa flauta de iniciação não se define apenas pelo preço ou pela lista de especificações.
Por exemplo, o mecanismo deve funcionar de forma consistente: as chaves devem fechar corretamente e as sapatilhas têm de vedar os orifícios sem fugas de ar. Isto é particularmente importante para um principiante, pois um músico experiente consegue perceber rapidamente quando uma nota não responde porque existe um problema mecânico. Quem está a aprender pode pensar que o problema está na técnica e passar meia hora a tentar corrigir a embocadura quando, afinal, há simplesmente uma chave que não fecha como deveria.
A ergonomia também tem bastante peso, salvo seja. A flauta é tocada lateralmente e obriga a manter os braços levantados durante bastante tempo. Para uma criança, sobretudo, alguns centímetros a mais ou a menos no alcance necessário podem fazer uma grande diferença. Mas veremos isso mais à frente.
Há outros componentes que são importantes também para quem está a começar.
Pratos fechados ou abertos?
Vamos a uma das especificações que cria alguma confusão. Os pratos são as partes das chaves onde colocam os dedos, a superfície onde estes assentam para acionar o mecanismo.
Numa flauta de pratos fechados, basta pressionar a chave. O dedo não tem de ficar exatamente no centro para fechar o orifício. Nos pratos abertos, algumas dessas chaves têm um orifício no meio. O dedo tem de o tapar completamente para a chave vedar corretamente.
Parece uma diferença mínima, mas quando estão a aprender a coordenar os dedos, uma pequena folga numa das chaves parece uma cratera. Os pratos fechados eliminam esse risco e deixam o aluno concentrar-se primeiro na produção de som, respiração, articulação e leitura. É uma das razões pelas quais são tão comuns nas flautas de estudo.
Então os pratos abertos são melhores?
São diferentes e exigem uma colocação mais precisa dos dedos. Também permitem explorar alguns dedilhados alternativos, glissandos e outras técnicas que não são possíveis da mesma forma com pratos totalmente fechados.
As flautas de alunos intermédios e profissionais têm frequentemente pratos abertos, mas isso não significa que seja obrigatório começar com pratos fechados e mudar mais tarde. Há alunos que começam logo com pratos abertos, sobretudo quando têm acompanhamento de um professor.
Também existem pequenos tampões que podem fechar temporariamente os orifícios. O aluno começa praticamente com a sensação de um prato fechado e vai retirando os tampões à medida que a posição dos dedos melhora.
Escolher entre pratos abertos ou fechados deve, sempre que possível, ser uma decisão aconselhada pelo vosso professor. Se estiverem a aprender sozinhos, os pratos fechados são normalmente a opção mais simples para começar.
Flauta Transversal Taylor Collins FL 1 Standard — pratos abertos e chaves desalinhadas
Chaves alinhadas ou desalinhadas?
Outro termo que aparece constantemente é chaves alinhadas ou desalinhadas. Aqui estamos sobretudo a falar das chaves de Sol da mão esquerda.
Nas flautas com chaves alinhadas, ficam aproximadamente na mesma linha das restantes. Nas flautas desalinhadas, ficam ligeiramente deslocadas.
Porquê? Experimentem colocar a mão esquerda numa posição relaxada e, se observarem onde fica naturalmente o dedo anelar, percebem que não fica necessariamente em fila com os restantes. O sistema desalinhado aproxima a chave dessa posição natural.
Para muitos músicos, este desalinhamento faz diferença, já que reduz a necessidade de esticar ou rodar a mão esquerda, proporcionando uma posição mais confortável, especialmente para crianças ou pessoas com mãos pequenas.
É por isso que encontram tantas flautas de iniciação com Sol desalinhado, muitas vezes referido nas especificações como offset G. Mas não pensem que alinhado significa profissional e desalinhado significa principiante: há excelentes flautistas que usam uma configuração desalinhada durante toda a carreira.
Neste caso, conforto e ergonomia são a prioridade.
O que é o mecanismo de Mi?
O Mi da terceira oitava é uma nota que pode ser particularmente ingrata na flauta. O chamado mecanismo de Mi, ou split E, altera a forma como parte do sistema de chaves funciona quando essa nota é tocada, ajudando-a a responder de forma mais estável.
Para um aluno, isso pode facilitar a emissão quando começa a chegar ao registo mais agudo, apesar de não substituir uma boa embocadura nem resolver problemas de técnica. É uma ajuda útil, razão pela qual aparece em muitos modelos destinados a estudantes.
Se tiverem de escolher entre uma flauta bem construída, corretamente regulada e sem mecanismo de Mi e outra cheia de características adicionais mas com uma mecânica pouco fiável, a escolha deve ser o instrumento que funciona bem. Depois é que vêm os extras.
Flauta Transversal John Packer JP011 — pratos fechados, chaves desalinhadas e mecanismo de Mi
E o pé em Dó ou em Si?
O pé é a secção final da flauta, aquela que fica mais afastada da cabeça. Nas flautas de estudo, é muito comum encontrar um pé em Dó, que permite tocar até ao Dó grave.
Um pé em Si acrescenta uma chave e prolonga a extensão do instrumento mais meio-tom, até ao Si grave. É uma característica frequente em instrumentos de gama superior ou pensados para músicos que já precisam dessa nota no repertório.
Para quem está a começar, o pé em Dó é normalmente suficiente e tem ainda a vantagem de ser mais curto e leve. Não escolham uma primeira flauta apenas porque o pé em Si parece uma especificação mais avançada: é preciso que exista uma razão musical para precisarem dele.
Cabeça direita ou curva?
Esta questão torna-se especialmente importante quando o aluno é uma criança. Numa flauta transversal normal, a cabeça é direita e o corpo do instrumento estende-se bastante para o lado direito. Um adulto consegue normalmente alcançar as chaves mantendo uma posição confortável, mas uma criança pode não conseguir.
Para chegar às chaves mais afastadas começa a esticar o braço, rodar o tronco ou levantar um ombro e, como estamos a ensinar música e não contorcionismo, é para isso que existe a cabeça curva.
A curva aproxima o corpo da flauta do músico, reduzindo a distância que os braços têm de percorrer. As mãos continuam a aprender praticamente as mesmas posições, mas o instrumento fica mais perto.
A pensar no crescimento dos pequenos músicos, algumas flautas de iniciação incluem duas cabeças: uma curva e uma direita. É uma solução especialmente interessante, pois a criança começa com a cabeça curva e, quando cresce o suficiente para manter uma boa postura com o instrumento completo, muda para a direita, sem precisar de reaprender a flauta nem de comprar outro instrumento. O que, para os pais, é um fator a ter em conta.
Flauta Transversal John Packer JP011CH — cabeça curva e direita, pratos fechados e mecanismo de Mi
Materiais e construção: o que interessa numa flauta de estudo?
Grande parte das flautas para principiantes é construída com ligas metálicas resistentes e recebe um acabamento prateado.
Em gamas superiores começam a aparecer componentes em prata maciça, primeiro frequentemente na cabeça e, em instrumentos mais avançados, também noutras partes da flauta. É fácil olhar para estas especificações e pensar que mais prata significa automaticamente melhor instrumento.
Para um principiante, a qualidade do mecanismo tem uma influência imediata muito maior na aprendizagem. As chaves têm de abrir e fechar corretamente. As sapatilhas precisam de vedar. As molas devem ter uma resposta consistente.
Uma flauta pode ter materiais muito interessantes e continuar a ser um pesadelo se estiver mal regulada. Mas uma boa flauta de estudo, construída para resistir ao uso diário e com um mecanismo fiável, pode acompanhar perfeitamente os primeiros anos de aprendizagem.
O peso também interessa
Segurar uma flauta transversal durante uma aula inteira é muito diferente de pegar nela durante trinta segundos numa loja. Braços, ombros, pulsos e mãos têm de sustentar o instrumento enquanto continuam suficientemente relaxados para tocar.
Nos músicos mais jovens, sobretudo, uma configuração demasiado pesada ou com demasiado alcance pode provocar tensão e criar maus hábitos posturais.
É por isso que devem experimentar o instrumento sempre que possível. Quando a compra é feita online, o peso indicado na ficha técnica pode dar uma referência, mas não conta toda a história: o equilíbrio do instrumento e a posição das mãos também influenciam o conforto. Se houver dúvidas, peçam ao professor para vos ajudar a avaliar a configuração adequada antes da compra.
O tamanho também conta
Ao contrário de instrumentos como violinos ou guitarras clássicas, não existem várias escalas de flauta transversal tradicional equivalentes a 1/2, 3/4 ou 4/4. A solução para crianças costuma passar pela cabeça curva.
Existem também instrumentos especificamente concebidos para músicos muito jovens, com adaptações ergonómicas e, em alguns casos, menos chaves. Mas se a criança já consegue usar o corpo normal da flauta confortavelmente com uma cabeça curva, esta solução tem uma vantagem clara: permite evoluir mais tarde para a cabeça direita mantendo o mesmo instrumento.
Mas como perceber qual é a melhor solução? Se para chegar às chaves têm de torcer o corpo, levantar o ombro ou esticar excessivamente os braços, então é melhor considerar uma cabeça curva.
Como cuidar da primeira flauta transversal
Como qualquer instrumento de sopro com elementos mecânicos, a manutenção faz parte do processo. A flauta não exige um ritual complicado depois de cada sessão, mas há uma coisa que devem fazer sempre: secá-la.
Ao tocar, o ar quente e húmido que sai dos pulmões provoca condensação dentro do instrumento, que é preciso eliminar ou reduzir ao máximo. Quando terminarem o vosso ensaio ou prática diária, desmontem a flauta e passem uma vareta de limpeza com um pano macio pelo interior da cabeça, corpo e pé. Limpem também as marcas dos dedos no exterior com um pano adequado.
Depois, guardem tudo no estojo.
Cuidado com as sapatilhas
Não as que calçam, mas as que ficam por baixo das chaves e são responsáveis por fechar os orifícios. Não lhes passem panos molhados, não as esfreguem e, sobretudo, não tentem resolver problemas mecânicos à força.
Se uma chave começar a prender, uma mola sair do sítio ou uma nota deixar subitamente de responder, a solução não é ir buscar uma chave de fendas à caixa de ferramentas, mas levar a flauta a quem sabe reparar instrumentos. Uma pequena fuga de ar pode tornar várias notas difíceis ou mesmo impossíveis de tocar corretamente, o que desmotiva até o aluno mais empenhado.
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O professor deve ajudar a escolher?
Um professor consegue observar coisas que não aparecem numa ficha técnica. Pode perceber se o aluno alcança confortavelmente todas as chaves, se está a criar tensão na mão esquerda ou se precisa de uma cabeça curva.
Também pode ter preferência por determinado sistema devido ao método de ensino que utiliza. Por exemplo, alguns professores podem recomendar pratos fechados durante a iniciação. Outros podem preferir que o aluno comece logo com pratos abertos e utilize tampões durante a adaptação. Todas estas decisões dependem do aluno.
O professor também pode experimentar o instrumento e perceber rapidamente se existe algum problema de resposta ou regulação.
Isso é particularmente útil quando quem compra ainda não consegue distinguir uma dificuldade normal de aprendizagem de um problema mecânico.
Que configuração faz sentido para cada principiante?
Agora que já falámos dos mecanismos, chaves e pratos da flauta transversal, podemos simplificar o vosso processo de escolha, indicando as características mais comuns de flautas por nível de aprendizagem e características do aluno.
Se são adultos ou adolescentes a começar do zero
Uma combinação muito comum é:
- - pratos fechados;
- - chaves desalinhadas;
- - mecanismo de Mi;
- - cabeça direita;
- - pé em Dó.
Não precisam de procurar todas estas características como se fossem uma lista obrigatória, mas é uma configuração bastante amigável para a iniciação.
Se quem vai aprender é uma criança
A primeira coisa a verificar é a postura. Se uma cabeça direita obriga a esticar demasiado os braços, procurem uma flauta com cabeça curva. O ideal será escolher um modelo que inclua também a cabeça direita e acompanhe o crescimento durante mais tempo.
Se o professor recomenda pratos abertos
Não há razão para fugir deles. Podem começar com tampões nos orifícios e retirá-los progressivamente. Neste caso, estão a escolher o instrumento tendo em conta um plano de aprendizagem mais longo e algumas possibilidades técnicas que os pratos fechados não oferecem da mesma forma.
É uma opção que pode fazer sentido num percurso acompanhado, mas esta decisão deve ser tomada com o vosso professor.
Se ainda não sabem qual escolher
Não decidam pela especificação que parece mais profissional. Uma flauta com mais mecanismos não vos transforma num flautista mais avançado. Uma flauta que funciona bem, é confortável e permite estudar sem lutar constantemente contra o instrumento é muito mais útil.
Alguns erros a evitar na escolha
Um erro comum é comprar apenas pelo preço, seja porque acham que é demasiado barata ou porque acham que uma flauta mais cara é automaticamente melhor. Existem modelos a preços acessíveis e com boa qualidade para iniciação, tal como existem instrumentos mais caros cujas características podem não ser necessárias nesta fase. Aconselhem-se com quem sabe e tirem dúvidas quando forem comprar.
Outro é comprar pela quantidade de especificações. Pé em Si, pratos abertos e materiais mais sofisticados podem ter interesse, mas não são automaticamente necessários num primeiro instrumento.
Ignorar o tamanho do músico é também uma falha importante. Uma criança pode ter força e capacidade para aprender flauta e simplesmente ainda não ter braços suficientemente compridos para uma cabeça direita.
E há ainda mais um erro muito comum: comprar uma flauta usada sem a experimentar ou mandar verificar. Um instrumento aparentemente impecável pode precisar de sapatilhas, regulação ou reparações que alteram completamente o valor da compra. O aspeto não revela a mecânica.
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Notas finais
A primeira flauta transversal não tem de ser a última. É o instrumento com que vão aprender a produzir as primeiras notas, coordenar os dedos, controlar o ar e descobrir como transformar tudo isso em música.
A fiabilidade é importante, pois assim podem concentrar-se no que realmente interessa: na música e na forma como a tocam.
O Salão Musical tem flautas e acessórios para diferentes perfis de aprendizagem, desde modelos com pratos fechados e mecanismo de Mi a opções com pratos abertos ou cabeça curva. Visitem a nossa loja online e vejam qual a configuração que faz mais sentido para vocês.
Flautas Transversais no Salão Musical
Foto Joonas Sild / Unsplash



